A cortiça como matéria de cultura na exposição de SAGG Napoli em Serralves
28 Setembro 2026Com o apoio da Corticeira Amorim, a Fundação de Serralves apresenta If We Stay, We Stay Awake, a primeira exposição individual de SAGG Napoli no Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Com curadoria de Inês Grosso, Curadora-Chefe do Museu de Serralves, a exposição parte de uma pesquisa desenvolvida no Porto e de referências provenientes do sul de Itália, em particular da região de Salento, para refletir sobre as formas como os habitantes reparam, adaptam e ampliam as suas casas - e sobre os diferentes significados atribuídos a essas intervenções.
Neste contexto, materiais e soluções habitualmente associados ao espaço doméstico são deslocados para o espaço expositivo, adquirindo novos significados. Entre eles está a cortiça, que assume um papel central na instalação, através do pavimento que integra a exposição e que estabelece uma ligação direta entre a cultura material portuguesa, a arquitetura e as práticas quotidianas.
“A mesma relação entre necessidade, escolha e valor aparece no chão de cortiça, nas ventoinhas e nas composições sonoras. Os materiais passam do uso doméstico para o espaço expositivo, onde o movimento do ar e a circulação do som orientam a experiência de quem percorre a sala”, explica Inês Grosso. Para a curadora, este processo permite que “soluções frequentemente classificadas como banais ou improvisadas passem a integrar uma linguagem artística e a ser reconhecidas como cultura”, sem, contudo, apagar as condições de habitação e de trabalho que estiveram na origem da sua utilização.
A presença da cortiça na exposição ganha, também, uma dimensão histórica e social. Em conversa com a artista, Mattia Tosti, curadora assistente de Serralves, questiona os hábitos coletivos e significados culturais associados aos diferentes elementos da instalação. SAGG Napoli destaca o pavimento de cortiça como um elemento “profundamente enraizado na cultura portuguesa”, relacionando-o com a produção local e com antigas práticas de construção.
A artista associa, ainda, a cortiça a uma dimensão política, evocando o SAAL da Bouça, projeto de Álvaro Siza no Porto, enquanto exemplo de uma experiência em que a construção assumiu uma dimensão simultaneamente técnica e social, e sublinha a capacidade dos materiais e da arquitetura para refletirem formas de organização coletiva e de habitar.
É nesta interseção entre matéria, território, arquitetura e cultura que a cortiça se integra na linguagem de If We Stay, We Stay Awake. Um material profundamente ligado à identidade e à produção portuguesa é, assim, reinterpretado num contexto artístico contemporâneo, revelando novas possibilidades de leitura sobre aquilo que reconhecemos como design, cuidado, necessidade ou valor.
Corpo, território e a South Aesthetics de SAGG Napoli
Nascida em Nápoles, em 1991, SAGG Napoli vive e trabalha entre Milão e Nápoles. A sua prática multidisciplinar cruza performance, vídeo, escultura, fotografia, escrita e cultura digital, a partir de uma reflexão crítica sobre a identidade napolitana.
Questões de classe social, género, regionalismo e saúde mental atravessam o seu trabalho, integrado numa investigação estética e política que a artista designa por South Aesthetics. As formas arquitetónicas, as hierarquias espaciais, e os códigos visuais e performativos do sul de Itália assumem um papel central numa obra que desafia narrativas dominantes sobre beleza, poder e valor cultural, atribuindo ao corpo, simultaneamente, a condição de sujeito e de meio.
Com If We Stay, We Stay Awake, a artista estabelece um diálogo entre diferentes territórios e formas de habitar, aproximando o Porto e o sul de Itália através de materiais, práticas e experiências quotidianas. A cortiça surge, neste percurso, como uma matéria capaz de transportar consigo não só uma história de produção e utilização, mas também memórias de arquitetura, comunidade e vida doméstica.
@ Fernando Guerra