Laura Donadoni é uma referência incontornável no mundo do vinho e da comunicação italiana. Jornalista, sommelière reputada, autora e educadora de vinho em universidades de referência, une a sua paixão por vinhos e gastronomia a um sólido percurso académico com um doutoramento em Ciências da Comunicação. De Itália para os Estados Unidos, e daí para o mundo inteiro, através da plataforma digital The Italian Wine Girl – nome pelo qual é conhecida – Donadoni conquista o mundo do vinho com o seu carisma, conhecimento e curiosidade. A influencer e wine expert italiana esteve em Portugal, onde mergulhou no Montado e ficou a conhecer de perto a Corticeira Amorim. Esta experiência, registada na série “The Guardians of Cork”, transformou a sua perceção sobre a cortiça, revelando a profunda ligação entre floresta, sobreiro e rolha. A descoberta deste ecossistema único, reservatório de biodiversidade e pilar da cultura do vinho, mudou a sua consciência. A rolha de cortiça não é apenas o melhor vedante que um vinho pode ter: é um símbolo poderoso de tradição, regeneração e respeito pela Natureza.
Qual a sua primeira memória da cortiça?
A minha memória mais antiga relacionada com a cortiça está ligada ao vinho, muito antes de começar a trabalhar na indústria. Lembro-me do som de uma garrafa a ser aberta à mesa com a família, aquele pequeno gesto atemporal que marca o início de um momento partilhado. Naquela altura, não pensava na cortiça como um material com uma história, uma paisagem ou uma cultura por trás. Simplesmente, era parte do ritual do vinho. Só mais tarde comecei a compreender a sua profundidade.
O que é que mais a surpreendeu nesta viagem a Portugal, para uma imersão profunda no universo da cortiça?
Foi a sensação de mestria discreta que envolve o descortiçamento. Esperava um processo técnico, mas encontrei uma coreografia ancestral. O trabalho é feito em silêncio, ao amanhecer, com um respeito quase sagrado pelas árvores. Não estava preparada para aquele nível de paciência, precisão e humildade. Está mais próximo de um legado cultural do que da extração de uma matéria-prima.
Como é que a visita ao Montado alterou a sua perceção da cortiça?
Visitar o Montado fez-me perceber que a cortiça não é um produto, é um ecossistema. Percorrer aquela paisagem mudou tudo. Compreende-se que cada rolha começa décadas antes, e é moldada pelo clima, pela biodiversidade e pela gestão humana. Mudou a minha perspetiva de um objeto para um ciclo de vida, e de um componente técnico do vinho para uma forma de responsabilidade ambiental.
Como especialista em vinhos que teve acesso a uma experiência diferente e mais profunda da cortiça, o que destacaria sobre a relação simbiótica entre o vinho e a cortiça? O que mudou na sua perspetiva desde a sua colaboração com a Corticeira Amorim?
A simbiose entre o vinho e a cortiça é muito mais do que a gestão do ingresso de oxigénio ou o potencial de envelhecimento. É uma questão de continuidade. Tanto o vinho como a cortiça são expressões agrícolas que dependem do tempo, do respeito pela natureza e da sensibilidade humana. Depois desta experiência em Portugal, vejo a cortiça menos como um vedante e mais como uma extensão do terroir. Ela carrega a sua própria geografia, o seu próprio ritmo. Essa compreensão aprofundou a forma como falo sobre o vinho e o trabalho invisível que o protege.
Se tivesse de escolher uma só vantagem ou característica das rolhas de cortiça, qual seria?
A sua humanidade. A cortiça é imperfeita da forma mais bela: natural, única, nunca igual. Ela lembra-nos que o vinho não é um produto industrial, mas um ser vivo que respira através de algo igualmente vivo.
Enquanto jornalista e comunicadora, sente uma responsabilidade acrescida como «guardiã da cortiça»?
Sinto a responsabilidade de proteger as subtilezas. Num mundo obcecado pela conveniência e pelos atalhos, é fácil esquecer a longa e frágil cadeia por trás de materiais naturais como a cortiça. O meu papel não é promovê-la, mas contar a verdade sobre o que vi: um sistema sustentável, uma paisagem cultural e um ofício que merece ser compreendido antes de ser julgado. Se isso faz de mim uma «guardiã», é simplesmente porque as histórias são uma das poucas formas de proteger o que é importante.