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Mohan Munasinghe - Temos de Aumentar o nível de produção sustentável

26/6/2020

Mohan Munasinghe é um dos maiores especialistas mundiais em alterações climáticas. Na segunda parte de uma entrevista exclusiva, o académico e Prémio Nobel da Paz alerta para o impacto das alterações climáticas, e para a necessidade de focar nas soluções, explorando o caminho da inovação sustentável.

Parece-lhe que as pessoas estão conscientes das alterações climáticas? Qual a informação mais atualizada sobre o seu impacto, sobretudo na região da Bacia do Mediterrâneo?

Existe um entendimento público inadequado dos impactos socioeconômicos das mudanças climáticas. Geralmente, são histórias de terror, sobre um incêndio florestal, ou um furacão, ou isso e aquilo. Mas os verdadeiros impactos socioeconômicos são muito mais profundos, o que também afetará o Mediterrâneo, em termos do que fará com os meios de subsistência das pessoas, o uso da terra e as chuvas e os impactos a longo prazo. Assim, o entendimento das pessoas pode surgir se as idéias forem simplificadas e adequadamente explicadas, em vez de se tratarem apenas de exemplos de cenários de terror, destinados a assustar as pessoas. A segunda coisa importante para aprofundar o conhecimento. Assustar as pessoas é apenas o primeiro passo para chamar sua atenção. Mas, as pessoas vão então questionar, "o que podemos fazer?", por exemplo. E aí podemos responder com, "bem, podemos comer menos carne". Mas existem proteínas alternativas suficientes? É aí que as empresas entram, muito importante. Porque estamos a falar não apenas sobre o consumo sustentável do público, mas também sobre a produção sustentável da comunidade empresarial. Tem de ser algo trabalhado em conjunto. Então, esta é a resposta à primeira pergunta. 

Portanto, é ainda possível que a inovação, e que novas ideias ou ideias mais antigas, recuperadas, possam agora ser trazidas de volta através dos canais normais do comércio, e que as pessoas as adotem como já adotaram outras?

Sim, penso que acertou em cheio. Não deveriam ser soluções pré-definidas. Deveríamos olhar também para as estratégias antigas. Na verdade, temos que olhar para o conhecimento tradicional. Por exemplo, como é que as pessoas, há cem ou mil anos, lidaram com secas prolongadas? E há algo nas práticas agrícolas que, se sobreviveu durante tanto tempo, provavelmente pode ser útil. Mas esquecemo-nos disso porque agora confiamos mais nos sistemas de irrigação modernos e nos fertilizantes de alto valor, e outras soluções mais vanguardistas. Portanto, o que está a dizer está certo, há alguma inovação que vem com novas ideias e novos métodos, mas também algumas técnicas de sobrevivência mais antigas são importantes.

Muito bem. Já leu sobre as estupas de gelo na Índia?

Não, na verdade não. Mas se é importante, diga-me.

É uma história maravilhosa. As pessoas estão essencialmente a construir estupas de gelo na região de Ladakh, no nordeste da Índia. Para este efeito fazem enormes quantidades de gelo e constroem grandes estupas, que permanecem ali durante todo o verão. Por isso as pessoas têm água muito depois de o gelo ter descongelado. Têm água durante todo o verão, usando apenas o que esteve à sua disposição nos meses de inverno. Criam uma estrutura muito simples. Só têm que compactar o gelo numa forma de estupa e a aldeia tem água durante todo o verão.

Essa é uma história incrível. Não conhecia, mas é um excelente exemplo. Portanto, técnicas simples também podem funcionar. Agora a sua pergunta sobre o Mediterrâneo e em concreto o impacto das alterações climáticas na vitivinicultura. Portanto, a alteração da temperatura do ar, entre outros fatores, sugere que, com o aquecimento global, os vinhos ou as uvas que são adequados para certas regiões mudarão. Isso vai ser um verdadeiro desafio e, em geral, as mesmas uvas poderão sobreviver melhor, aumentando, ou não se darem sequer com as alterações. Isto não é válido apenas para o Mediterrâneo, mas para todo o mundo. Portanto, embora o aumento da temperatura seja muito gradual, essa mudança irá afetar os vinicultores a longo prazo. Também há mudanças em termos da precipitação, essencialmente menos chuva, particularmente no verão. Isso dependerá, naturalmente, da região em causa, mas também será algo em que os vinicultores terão de ser particularmente cuidadosos.

E que outros aspetos teremos de enfrentar?

Os outros aspetos terão, evidentemente, um impacto especial nas pessoas que vivem nas cidades. Haverá mudanças bastante grandes em relação às quotas de pesca, em primeiro lugar. Se houver, por exemplo, pesca excessiva, ou massificação do uso da água, ou aumento da temperatura, entre outros, isto irá agravar os problemas já existentes. Isto é verdade em geral no que respeita às alterações climáticas. Se existirem problemas causados pelo homem, as alterações climáticas irão agravá-los. Em relação à saúde pública, o problema é o mesmo. Há a história habitual das pessoas, para não falar de fenómenos como os incêndios florestais, que se tornam mais prováveis, e que podem constituir uma ameaça para a vida e também causam danos ao ambiente. Portanto, todas estas coisas têm de ser enfrentadas, e não esqueçamos que tanto a população como o número de turistas estão a aumentar, para além do fenómeno da urbanização. Portanto, todos estes fatores vão confluir e não será fácil de gerir. Por último, gostaria de me referir a algumas das coisas que irão acontecer. Há que estar particularmente preocupado com a população agrícola. Penso que a população urbana, que é mais industrial, e tem esse tipo de empregos, deveria estar mais preocupada com este género de tecnologia.

Refere-se à robotização, ao emprego?

Sim. Penso que se for um trabalhador industrial urbano, a sua preocupação não será tanto com as alterações climáticas, mas com o facto de o seu emprego vir a ser substituído por um robô. Por isso, são as tecnologias destrutivas que vão ser mais preocupantes para os trabalhadores urbanos. Para os agricultores, como acontece nas regiões produtoras de cortiça, e nas regiões produtoras de vinho, as alterações climáticas tornam-se muito mais importantes, porque a pluviosidade muda, a temperatura muda e as culturas mudam. 

Mas a preocupação foca-se em não ter pessoas para trabalhar nas zonas agrícolas e que isso esteja ligado à substituição de pessoas por máquinas?

Não necessariamente. Estou a dizer que, no curto a médio prazo, se estão preocupados com as questões de emprego relacionadas com alterações climáticas, concentrem-se mais nas regiões agrícolas. Se estão preocupados com as tecnologias destrutivas, então concentrem-se muito mais na tecnologia digital e no que ela irá fazer. Mas isso é mais para os empregos industriais e para os trabalhadores de colarinho branco.

No quadro do BIGG (Balanced Inclusive Green Growth), o que é pode ser feito para encontrar esse tipo de solução que beneficia as pessoas, o planeta e a prosperidade? Qual o papel de empresas como a Corticeira Amorim neste processo?

Para os países industriais, o caminho é essencialmente manter, ou mesmo melhorar ligeiramente, o seu nível de vida, reduzindo simultaneamente a utilização dos recursos ambientais. Portanto, trata-se essencialmente de reduzir o consumo de energia, o consumo de água, o uso do solo, mas produzindo tantos ou mais bens do que anteriormente. Tudo isto tem que ver com a tecnologia e os processos. E as empresas são atores muito importantes. Para os países de rendimento médio, há uma curva diferente. Pede-se aos países de rendimento médio que não sigam o exemplo dos países ricos, porque estes atingiram uma posição em que têm de reduzir o seu consumo de recursos. Em vez disso, devem seguir as lições anteriores, utilizar as novas tecnologias e a inovação, que é a palavra que se utiliza, para encontrar o caminho do crescimento verde inclusivo (BIGG) que lhes permita chegar à mesma meta, mas com muito menos utilização de recursos. É um tipo de abordagem que podemos chamar de “queimar etapas” usando a inovação, isto para os países de rendimento médio e baixo.

Seria, portanto, um processo de saltar etapas que teria de alavancar a tecnologia para evitar os erros graves do passado.

Exatamente, é precisamente isto. Existem dois caminhos diferentes. Não se trata de uma abordagem igual para todos. Por outras palavras, os países ricos já sabem o que é preciso fazer para reduzir o consumo de energia, embora o senhor Trump não se esteja a esforçar muito nesse sentido. A razão pela qual os países ricos não o farão, é que os sinais dos preços não são os certos, ou não há cooperação suficiente por parte do sector privado ou do governo. Mas para os países ricos é mais difícil, porque nos habituámos a um certo estilo de vida e é muito mais difícil mudar. Já os países emergentes, e os países pobres, não se devem habituar a esse estilo de vida. Já podem, como disse, inovar, queimar etapas e saltar para as novas tecnologias evitando estes problemas. Portanto, isso faz parte do caminho BIGG de que falei.

Só para vos dar um exemplo muito simples. O estilo de vida sustentável tem a ver, por exemplo, com o consumo. Se olharmos para os alimentos, um terço da produção mundial de alimentos é atualmente desperdiçada. Nos Estados Unidos, cerca de 50% dos alimentos que chegam a uma casa são desperdiçados, porque cortam e deitam fora coisas, certo? Na Europa é mais de 30% porque as pessoas são mais comedidas. Em muitos países em desenvolvimento o desperdício está entre 0% e 10% porque as pessoas são tão pobres, que não deitam nada fora. Por isso, de alguma forma, temos 800 milhões de pessoas que têm fome. Não estamos a dizer que se pode enviar ou comprar todas as sobras alimentares dos EUA para a África Subsariana. Mas há um equilíbrio entre a produção e o consumo de alimentos, que pode ser melhor organizado se seguirmos padrões de consumo e estilos de vida sustentáveis. Agora, do lado da produção, há o outro lado da história, e aí, penso que temos de aumentar o nível de produção sustentável. Assim, em última análise, se tivermos consumidores sustentáveis suficientes e produtores sustentáveis suficientes, a ajudarem-se mutuamente e a comprarem produtos que sejam sustentáveis, teremos uma sociedade sustentável. Mas se os consumidores forem esbanjadores e os produtores não forem responsáveis em termos da publicidade neste sentido, não obteremos esse resultado.

Finalmente, a pandemia COVID-19 é a maneira que a Natureza tem de nos lembrar, à força, que a sustentabilidade é mais importante que nunca, e louvo a Amorim, no seu 150º aniversário, por ajudar a liderar o caminho para o crescimento verde inclusivo e um mundo mais seguro para todos.

Clique aqui para ler agora a primeira parte desta entrevista exclusiva