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Mohan Munasinghe - O Caminho para uma Sociedade Sustentável

26/6/2020

Mohan Munasinghe, galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2007, é um dos maiores especialistas mundiais em alterações climáticas. Nesta entrevista exclusiva, que dividimos em duas partes, o físico, académico e economista natural do Sri Lanka defende que alterações climáticas e desenvolvimento sustentável não podem ser pensados isoladamente. O caminho para uma sociedade sustentável é comparável à escalada de uma montanha. Feito por etapas, um passo de cada vez.

O desenvolvimento sustentável é uma meta, mas também um percurso. Como caminhamos para essa sociedade sustentável?

Sim, o objetivo é o desenvolvimento sustentável e o caminho tem como nome "Balanced inclusive green growth" (BIGG). O desenvolvimento sustentável exige que harmonizemos o triângulo da economia, sociedade e meio ambiente. Portanto, o BIGG significa que equilibramos uma sociedade inclusiva, um ambiente verde e uma economia em crescimento.

Há várias fases para chegar a esse objetivo, por parte das empresas. Uma é a liderança de alto nível. É preciso ter um compromisso de liderança de alto nível, é preciso estar de acordo em que a sustentabilidade deve permear todos os níveis da cultura empresarial. Isso é apenas uma espécie de visão. Depois há algumas orientações práticas, como os objetivos de desenvolvimento sustentável, a GLI, a ISO, entre outras, que podem ser utilizadas para alinhar as práticas empresariais. Mas isto é muito genérico, embora possa ajudar. E depois há algumas coisas que se podem fazer que são conhecidas, como avaliações preliminares de sustentabilidade, para identificar quais são as prioridades, por outras palavras. Quais as áreas da sustentabilidade que podem ser melhoradas. Portanto, esta é a primeira fase. É isso que está a preparar o terreno.

Na segunda fase, e também já discutimos este assunto com a Amorim, vamos para a sustentabilidade interna. Portanto, a primeira fase é aquilo a que eu chamo “subir a montanha”. O topo da montanha é o desenvolvimento sustentável. Agora temos de conseguir que a liderança olhe do cume, porque os líderes veem a longo prazo e podem pensar em termos visionários. Portanto, eles vêm o quadro completo. As pessoas que trabalham na empresa estão a escalar a montanha - um passo de cada vez. Por isso, têm de ser elas a receber orientação. Em primeiro lugar, há que fazê-las perceber por que razão o seu trabalho está a contribuir para este benefício global da empresa, mas também para o tipo de abordagem de interesse próprio. Isto é, se derem o seu contributo, serão recompensados pela empresa e isso irá ajudar a empresa e, eventualmente, a humanidade. Mas trata-se essencialmente de capacitar as pessoas para fazerem o seu modesto contributo. Não que elas sejam inúteis, mas são pequenas engrenagens na roda.

Então, quais são as técnicas? Já discutimos isto, a análise do ciclo de vida completo. Começamos com a análise interna. Uma empresa pode certamente influenciar o seu próprio processo de produção e as suas próprias operações, os empregadores, o processo pró-humano, os fornecedores e a cadeia de fornecimento. Tudo isto pode ser influenciado, porque as empresas pagam. Portanto, uma vez que pagam, têm uma maior influência. Através da análise da cadeia de abastecimento e do ciclo de vida completo, é possível identificar os pontos nucleares: energia, água, emissões de carbono, condições de trabalho, equilíbrio entre os géneros. Pode analisar-se tudo isto e pode pôr-se a casa em ordem. Sustentabilidade interna, lidar com as cadeias de abastecimento, fornecedores pró-humanos, produção e operações e os seus colaboradores. Por isso, esta é a segunda fase.

Agora, a fase três é um pouco mais difícil. Aí, consideraremos as pessoas que vos pagam pelos produtos, os vossos clientes. Agora, vão até à cadeia de abastecimento, indo para o outro lado. De que formas as empresas influenciam os consumidores do seu produto, os utilizadores finais, desperdícios e assim por diante. Para isso as empresas têm de tornar os seus produtos mais sustentáveis e educar os seus clientes sobre como utilizá-los de uma forma sustentável, no seu estilo de vida e assim por diante, bem como o seu impacto externo. A informação é importante. Existem técnicas como rotulagem ecológica, energia, pegada de carbono, possibilidade de reciclar a embalagem ou o produto, bem como o aumento da sensibilização dos consumidores em geral. Mas as empresas perguntam frequentemente se isto não é uma falsa sensação. Quanto é que realmente ganham e se não estão a gastar muito tempo com a sensibilização dos consumidores. Esta é a terceira fase.

A fase quatro, que ainda não fiz com nenhuma empresa, acontece quando os objetivos empresariais e os objetivos de sustentabilidade se fundem. Assim, sempre que já se inclui a sustentabilidade de uma decisão empresarial, já se criaram KPIs para que essa fase seja a fase final a que se pode chegar. Num mundo pós-pandemia, as empresas que avançarem para esse objetivo vão tornar-se mais resilientes e sobreviverão.

É verdade, não há muitas empresas que o façam. Penso que o caso da Amorim é interessante, porque o nosso negócio depende tanto da sustentabilidade que, sem ela, não temos matéria-prima, não temos negócio, ponto final. Penso que é interessante ver como podemos estar em diferentes fases simultaneamente, no sentido em que quanto mais orientados de forma sustentável os consumidores estiverem, mais vão preferir os nossos produtos, mais espécies nativas como esta serão plantadas em torno do Mediterrâneo Ocidental e mais sustentabilidade vamos ter. Será que isso faz sentido?

Absolutamente. Quando falei sobre consumidores sustentáveis e produtores sustentáveis que se apoiam uns aos outros, a Amorim é um exemplo muito bom. Basicamente está a desenvolver um ciclo auto-sustentável, de uma sociedade florestal sustentável na sua região. Penso que é exatamente isso que está correto. Penso que, certamente, em termos da libertação de carbono são excelentes. Porque basicamente têm uma pegada de carbono zero ou negativa, o que é muito importante, e porque a vossa cortiça dura muito tempo e estão a sugar o carbono do ar. O conceito de economia circular, vocês estão a praticar muito isso. E a gestão sustentável das florestas, a questão do ambiente e da biodiversidade e, do ponto de vista social, o facto de estarem a proporcionar empregos, a cuidar das pessoas, das condições de trabalho, entre outros fatores, numa indústria muito tradicional, que está a inovar, na linha da frente. E os produtos. Por isso penso que são um exemplo muito bom desse tipo de abordagem de sustentabilidade.

A agricultura representa cerca de ¼ das emissões mundiais e os sumidouros de carbono constituem medidas de mitigação fulcrais. Que importância tem a Corticeira Amorim tanto no apoio às florestas como no desenvolvimento de novas soluções com cortiça? Quando vemos que os esforços políticos multilaterais falham, serão as empresas o último desencadeador?

Eu diria antes assim: as empresas estão mais conscientes daquilo que está em jogo no futuro a médio e longo prazo do que os governos, ou talvez estejam mais dispostas a tomar medidas. Penso que muitos líderes políticos são suficientemente inteligentes para ver o que está a surgir, mas não têm a coragem de dar os passos necessários. Esta tem sido, portanto, a minha estratégia nos últimos 10 ou 15 anos, de trabalhar cada vez menos com líderes governamentais, os chamados líderes mundiais. Já estive em algumas destas reuniões e em muitas outras. Porque tudo isto é um exercício de relações públicas e, no caso de Madrid, nem sequer houve uma vitória de relações públicas, foi tudo um desastre. Mas mesmo com o acordo de Paris, embora tenham declarado vitória, tudo o que fizeram foi chegar a acordo sobre alguns objetivos sem mecanismos de implementação, sem algum mecanismo que efetivasse o cumprimento, sem nada. Então como é que podem esperar que algo assim seja implementado? O que pergunto é como é que lidamos, enquanto empresa, com o fracasso contínuo dos governos? Que era o propósito disto. A minha resposta é: tomemos o pior dos cenários. Os governos não vão lidar com isso, porque estão demasiado preocupados com a imigração, ou com Brexit ou Grexit ou com o que seja que for que venha a seguir. Ou o muro EUA-México ou qualquer outra coisa. Portanto, se temos uma empresa responsável, e uma multinacional como a Amorim, que tem responsabilidade global, como podem eles trabalhar com uma sociedade de consumo e com a sua base de clientes, para começar? Para fazer avançar as coisas? A resposta não é necessariamente concentrar-se apenas nas alterações climáticas. Essa é a outra mensagem. Portanto, as duas mensagens são: não confiem nos governos porque são cada vez menos capazes de resolver este problema. Por conseguinte, as empresas devem trabalhar com a sociedade civil, nomeadamente com a sua base de clientes e os seus empregados, para pressionar os governos a fazer o que é correto. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é ligar as questões, porque os objetivos do desenvolvimento sustentável têm que ver com o facto de nenhum problema poder ser resolvido isoladamente. Existem 17 objetivos de desenvolvimento sustentável, e o clima é apenas um deles.

“Podemos tornar o desenvolvimento mais sustentável se integrarmos as políticas de mitigação e adaptação às alterações climáticas à estratégia de desenvolvimento sustentável”. Pode desenvolver este conceito e explicar de que modo a Corticeira Amorim, enquanto líder mundial na transformação de cortiça, pode tornar estas práticas ainda mais eficazes?

O clima é importante não porque se trate de um fenómeno científico abstrato, mas porque vai afetar a próxima colheita e o crescimento das vinhas, a sua rentabilidade, a qualidade dos vinhos, a forma como vão pagar aos seus trabalhadores, tudo isto. Assim, quando trouxermos esse tipo de relação e mostrarmos as ligações entre as diferentes áreas do desenvolvimento sustentável, então teremos muito mais apoio para as alterações climáticas. Esta é uma das coisas que as empresas orientadas para a sustentabilidade podem fazer. A outra coisa que podem fazer é praticar o que pregam. Digo isto em particular para as empresas que estão a fazer “lavagem verde”, e a Amorim não é o caso, porque vocês são muito sinceros. Vocês podem ter muita influência e não estamos a falar apenas de marketing tradicional.
Muito consumo está agora a ter lugar através dos mercados digitais, e os jovens que conheço fazem quase 90% das suas compras e marketing online. Assim, podemos chegar a muito mais jovens, muito mais facilmente com os mesmos tipos de publicidade que eram feitos no passado e persuadi-los a serem mais orientados de forma sustentável, e depois tornam-se eleitores e pressionam o governo a fazer o que está certo. Estamos, portanto, a voltar à velha história de que estamos a tentar harmonizar o triângulo do desenvolvimento sustentável, como eu disse. Por isso, a empresa tem de zelar primeiro pela sua base económica e financeira. E isso é justo, porque o objetivo original da empresa é obter lucros para os seus acionistas. Mas há muitos outros aspetos, que não são apenas a linha de fundo, mas agora um pouco a linha de fundo tripla - isto é, agora fazem parte da comunidade, por isso têm o cuidado de se comportarem bem dentro da comunidade, onde se encontram. Se é uma multinacional, a sua comunidade torna-se quase o mundo inteiro. Esta é basicamente a sua combinação de clientes, mais, claro, os seus colaboradores e outros. Portanto, também tem de cuidar do ambiente, e assim por diante. Harmonizá-los, não se torna tão difícil, porque agora estamos a pensar numa escala maior. Podemos não só querer maximizar o lucro, mas também a durabilidade e a longevidade da empresa, que é basicamente o facto de querer estar lá, não só durante os primeiros cem anos, mas também durante mais cem. É uma notícia muito boa para o aniversário da Amorim. Poder dizer que lançou as bases para os próximos cem anos, penso que seria um bom slogan. É essa, na verdade, a mensagem da sustentabilidade. Portanto, quando se pensa em todo o conceito de “valor partilhado”, e assim por diante, partilha-se esse valor com todas as partes interessadas. Assim, primeiro são os próprios acionistas, que querem obter alguns lucros. No entanto, partilha-se aquele valor com a comunidade em que vivem, tornando essa comunidade um lugar mais habitável e agradável. Vocês criam empregos, podem construir um parque, cuidar de crianças e depois partilhar valor, com um maior número de pessoas através do ambiente e melhorá-lo. Vocês reduzem as vossas emissões de carbono, por exemplo, e, de alguma forma, o conceito de valor partilhado ajudará a gestão e a administração da empresa a ter uma visão mais ampla da forma como eles gastam os seus lucros. Isto volta ao que eu disse logo no início. A fase quatro é onde o negócio cresce e a empresa que pode ter começado como lucro, funde-se muito mais com a sustentabilidade, que está muito melhor alinhada com o resultado final.

E como se implementa isso?

A resposta é a conectividade que lhe mostrei. As alterações climáticas estão ligadas a todos os outros aspetos da sustentabilidade. Penso que é assim que se combatem as alterações climáticas, tratando de todos os problemas ao mesmo tempo. Não se pode simplesmente resolver um problema de cada vez.

Costumávamos pensar que estas coisas estavam tão distantes no futuro que dizíamos “pensaremos nesse problema quando lá chegarmos”. Não precisamos de fantasiar ou de imaginar como serão as alterações climáticas, porque já sabemos como são. As imagens estão por todo o lado, bem explícitas. Como é que se mantém positivo no meio deste cenário?

É uma questão de empoderamento, que é um dos princípios que enunciei há 25 anos - ou seja, basicamente, que, ao subir a montanha, as pessoas não devem sentir-se desamparadas. Porque quando se sentem desamparadas, então desistem. Mas é preciso chamar-lhes a atenção, como diz. Há muitas imagens de pessoas afetadas pelas alterações climáticas, ou de pessoas que vão ser afetadas, e agora temos muitas imagens de pessoas que vão ser afetadas mesmo ao nosso lado. Não é preciso mostrar-lhes pessoas pobres na região subsaariana ou um urso polar sobre um fluxo de gelo derretido. Pode mostrar-lhes o que fará a toda a sua agricultura dentro de cinco a dez anos. Por isso, é preciso chamar a atenção deles, não se fica por aí. Podemos dizer-lhes: "Aqui está o que podemos fazer, se se mobilizarem, se fizerem isto, podem impedi-lo". É a isso que me refiro ao escalar a montanha, um passo de cada vez. Chama-se-lhes a atenção, mas depois dá-se-lhes alguma esperança quanto à forma como se podem organizar. Assim, voltamos à nossa velha mensagem de uma sociedade sustentável, onde temos uma produção e um consumo também sustentáveis. Se não, perdemos a esperança. Porque embora os nossos líderes possam não estar a fazer a sua parte, as pessoas pensam que elas próprias estão a fazer alguma coisa - e isso faz com que se sintam mais positivas e com mais esperança. Ao nível das empresas, ao nível das comunidades e das cidades, apenas se constrói a partir da base. É isso que eu acredito que pode ser feito. E os líderes de nível intermédio. Isto é muito relevante para a Amorim.

Os líderes de nível intermédio como a família Amorim estão a fazer muito mais pela sustentabilidade do que os líderes mundiais. Porque, quer seja um CEO de uma empresa ou o presidente da câmara de uma cidade, está em estreito contacto com as pessoas. Por isso, pode falar por eles e eles responderão ao que disser. Por isso, este nível intermédio de liderança é muito crítico. E é aí que a Amorim tem um papel crucial. E acredita que é aqui que vai ser “tudo ou nada”?

Sim. Penso que é aí que vai ser isso, porque se esperarmos que os líderes mundiais façam algo, estamos perdidos. Estamos à beira de um precipício. Se esperarmos pelos líderes mundiais, vamos cair. Por isso, o nível intermédio tem de subir. Suba e diga “olhe, já chega, vamos mostrar-vos como se faz”. Não a nível nacional. Estando em Portugal ou sendo a Amorim não se pode dar ordens ao governo, mas ainda pode dizer-se na vossa região: “nós podemos fazer estas coisas”. Se todas as empresas e outros grandes atores começarem a fazer isso, em grandes cidades como Lisboa, que é a capital verde europeia este ano, se todos eles começarem a fazer a sua pequena parte, acabará por ser o país inteiro. Por isso, a minha motivação é fazer coisas que estão a levar as pessoas a fazer coisas também. Penso que estão a fazer verdadeiros progressos nesta agenda da sustentabilidade. Penso que a sustentabilidade tem sido tradicionalmente parte integrante da marca Amorim. Na verdade, está a anunciar esse facto muito mais, e isso significa mais poder para si. Desejo-vos a todos sucesso.

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