Com curadoria de Adam D. Weinberg, diretor emérito do Whitney Museum of American Art, também em Nova Iorque, a exposição nasce da investigação que Giuseppe Penone desenvolve desde o final da década de 1960 em torno das árvores e da relação entre o corpo humano e a natureza. Um percurso que deu origem às suas reconhecidas esculturas em madeira e que surge agora prolongado em peças de bronze, material através do qual explora ideias de permanência, transformação e passagem do tempo.
É, porém, na utilização da cortiça que a dimensão sensorial da exposição ganha maior força. Na primeira das três salas que compõem o percurso expositivo, o espaço abre-se revestido do chão ao teto com pranchas de cortiça, a casca renovável do sobreiro, para criar uma atmosfera imersiva onde o bronze também se integra.
A relação do Artista com a cortiça nasce da forma como este material incorpora a ideia de tempo. “Fascina-me a produção da cortiça, que se baseia no tempo. Os sobreiros crescem durante 40 anos antes de serem descortiçados pela primeira vez; depois, durante nove anos, desenvolvem uma nova casca que será retirada, e depois mais nove anos, e assim sucessivamente… Vi plantações de jovens sobreiros que só serão descortiçados dentro de duas gerações. Uma ‘floresta-fábrica’ de cortiça que funciona em sintonia com o ciclo natural de vida das árvores, ladeada por gerações e gerações de homens que contam os anos de crescimento da floresta” [I am fascinated by the production of cork, which is based on time. Cork oaks grow for 40 years before being stripped for the first time; then, for nine years, they grow a new bark that will be stripped, and then another nine years, and so on… I have seen plantations of young oak trees that will be stripped in two generations’ time. A “forest-factory” of cork that operates in tune with the trees’ natural life cycle, flanked by generations after generations of men, counting the years of the forest’s growth.], afirma o artista.
No centro desta mesma sala encontra-se Marsia (Marsyas), uma escultura inspirada no mito grego de Mársias, o sátiro que perdeu um concurso musical para Apolo e foi condenado a ser esfolado vivo enquanto pendurado numa árvore. A obra desenvolve-se através de dois ramos de bronze interligados, um revestido de casca e outro despido, evocando simultaneamente vulnerabilidade, transformação e resistência.
“Quando se entra na galeria da minha exposição na Gagosian, em Nova Iorque, somos envolvidos pelos anos de crescimento da cortiça que cobre as paredes” [Upon entering the gallery of my exhibition at Gagosian in New York, one is enveloped by the years of growth of the cork that covers the walls], descreve Giuseppe Penone.
Ao longo da exposição, o Artista continua a explorar a relação entre matéria e tempo, utilizando materiais como bronze, madeira e cortiça para refletir sobre os ciclos naturais, a metamorfose e a permanência das formas.
Sobre Giuseppe Penone
Figura central do movimento italiano Arte Povera, desde o final da década de 1960 desenvolve uma prática artística que se move entre escultura, performance e desenho. O seu trabalho parte de intervenções realizadas em paisagens naturais no norte de Itália, em particular na região do Piemonte, onde começou por explorar a relação direta entre o corpo e os processos de crescimento das árvores. A partir dessas experiências iniciais, o Artista construiu uma obra situada entre a observação de processos naturais e a transformação da matéria, incluindo séries em que intervém diretamente em troncos de árvores para revelar diferentes fases do seu crescimento. Ao longo de décadas, este percurso alargou-se a outros materiais e escalas, mantendo o interesse pelos mecanismos orgânicos que estruturam a passagem do tempo.
@ Archivio Penone