A CORTIÇA
Perde-se no tempo, o início da utilização da cortiça, quer nas artes de pesca, quer para vedar vasilhas e outras aplicações domésticas, pelos povos da baía do Mediterrâneo Oriental. Já no antigo Egipto e na Grécia eram utilizados vedantes cilíndricos feitos em cortiça, embora sem grande divulgação. Em 1680 o monge beneditino francês Dom Pierre Pérignon iniciou, com êxito, a utilização da cortiça como vedante dos recipientes de vinhos espumosos (champanhe). Na primeira metade do século XVIII, o uso da rolha encontrava-se já difundido internacionalmente, tendo sido adoptado por caves de prestígio como a Ruinart de Reims e a Moët et Chandon. A crescente procura deste vedante dá origem, à criação da primeira unidade fabril vocacionada para a produção de rolhas (1750, Catalunha). Ao longo dos últimos anos, apesar da rolha continuar a ser a utilização nobre da cortiça, inúmeros outros produtos e soluções, de elevado valor acrescentado, seja a nível económico seja a nível ambiental, têm vindo a ser desenvolvidos com sucesso.
A cortiça é um produto 100% natural, totalmente renovável, extraída da casca do sobreiro - Quercus Suber L -, uma árvore singular cujo habitat natural é a bacia Ocidental do Mediterrâneo. O sobreiro constitui a base de um sistema ecológico único no mundo, contribuindo para a sobrevivência de muitas espécies de fauna e flora autóctones e para a prevenção da desertificação de zonas sensíveis, sendo pilar fundamental na salvaguarda do meio ambiente. Entre as várias características que distinguem o sobreiro das restantes árvores da sua espécie, sobressai a capacidade de se regenerar naturalmente após cada extracção da sua casca, a cortiça. Um sobreiro apresenta um tempo de vida entre os 170 e os 200 anos de idade, podendo durante este período ser descortiçado cerca de 15 a 18 vezes. A floresta de sobro ocupa, a nível mundial, uma área de 2,3 milhões de hectares, da qual se extrai anualmente cerca de 340 000 toneladas de cortiça. É em Portugal que se concentra mais de 33% da área mundial, seguindo-se a Espanha com 22%, alguns países do Norte de África com 37% (Marrocos, Argélia e Tunísia), a França e a Itália, com os restantes 8%. O sector da cortiça assume uma importância fundamental para a economia nacional. Portugal é líder na produção e transformação de cortiça, responsável por 55% da sua produção mundial, destinando-se cerca de 90% da matéria-prima, maioritariamente transformada, ao mercado externo. Com uma área florestada de sobreiro de 750 000 hectares, Portugal tem vindo a enveredar por uma política de importantes reflorestações. Entre 1993 e 1997 mais de 100 000 hectares foram plantados, correspondendo a um aumento de 16%. O ritmo de reflorestação é, actualmente, de 10 000 hectares/ano. Fonte: APCOR
Portugal é líder incontestável do sector da cortiça: na produção, na transformação, na investigação e desenvolvimento e na inovação. Actualmente, este sector representa cerca de 3% das exportações portuguesas. A rolha de cortiça é o produto mais representativo desta indústria, responsável por 70% destas exportações. No entanto, a sua aplicação vai ao encontro de sectores tão exigentes como a indústria espacial, automóvel, de construção civil e de confecção. NASA, Boeing, Ford, Moët & Chandon e Rolls Royce são alguns exemplos de organizações que utilizam produtos fabricados em ou com cortiça.. Notavelmente estável e resistente, a cortiça já foi comparada pela revista The Economist aos diamantes de África e aos campos de petróleo do Médio Oriente, com a mais-valia, em relação a estes, dos seus recursos serem verdadeiramente renováveis e não poluentes.
O segredo do desempenho da matéria-prima cortiça está na sua estrutura celular. O interior da cortiça é composto por uma colmeia de pequenas células de suberina, um ácido complexo, preenchidas com uma mistura gasosa quase idêntica à do ar. Cada centímetro cúbico de cortiça contém, em média, 40 milhões de células, existindo numa rolha de cortiça cerca de 800 milhões de células. Composição química da cortiça: suberina (45%) - principal componente das paredes das células, responsável pela elasticidade da cortiça; lenhina (27%) - composto isolante; polissacáridos (12%) - componentes das paredes das células que ajudam a definir a textura da cortiça; taninos (6%) - compostos polifenólicos responsáveis pela cor; ceróides (5%) - compostos hidrofóbicos que asseguram a impermeabilidade da cortiça.
A estrutura e a composição química da cortiça conferem-lhe um conjunto de qualidades únicas: - matéria-prima renovável;
- produto 100% natural e biodegradável;
- impermeabilidade a líquidos e a gases;
- leveza/flutuabilidade - a sua densidade situa-se à volta de 0,2;
- resistente à penetração de humidade - impermeabilidade tanto a líquidos como a gases;
- elasticidade/compressibilidade - poder de readquirir a forma primitiva, depois de ter sofrido uma pressão - o único sólido que não sofre dilatação lateral;
- excelente isolante térmico, acústico e vibrático;
- resistência ao desgaste - resistência ao atrito e o seu elevado coeficiente de fricção;
- não absorve poeiras - evita alergias;
- resistente à combustão - retardador da progressão de incêndios.
produto natural, renovável; não poluente e protector da floresta: não a destrói, pelo contrário promove a sua limpeza e conservação; permite o florestamento de áreas afectadas por risco de desertificação;´ quimicamente inerte, inócuo para a saúde, quando em combustão não liberta quaisquer gases tóxicos; resistente ao desgaste do tempo - mantém-se inalterável ao longo do tempo; condutibilidade térmica mais baixa entre os produtos resistentes ao fogo.
É importante salientar que em cada década, apenas é extraída a casca do sobreiro. A árvore nunca é danificada. Usando a cortiça, mantemos a nossa floresta viva.
O “Assobiador” é o mais antigo e mais produtivo sobreiro existente no mundo, assim chamado devido aos numerosos pássaros canoros que a habitam. Foi plantado em 1783, perto da vila de Águas de Moura, na região portuguesa do Alentejo. O “Assobiador” tem mais de 14 metros (45 pés) de altura e 4,15 metros (quase 15 pés) de circunferência. A sua primeira extracção teve lugar em 1820, e desde então já lhe foram feitas mais de 20 extracções. A extracção de 1991 produziu 1 200 quilogramas de cortiça – mais do que a produção registada pela maioria das árvores ao longo de toda a sua vida. Esta extracção, sozinha, deu origem a mais de 100.000 rolhas para garrafas de vinho. A última extracção, realizada em Junho de 2000, foi menos produtiva, conseguindo ainda render uns impressionantes 650 quilogramas, o equivalente a 10 vezes a produção de qualquer sobreiro vulgar.
Métodos de aproveitamento da cortiça Para além do seu valor ecológico, o sobreiro é uma árvore notável, na medida em que todos os seus componentes têm utilidade económica. Eis alguns exemplos: - a bolota, fruto do sobreiro, além de ser utilizada para efeitos de propagação, também serve como forragem para animais e fonte de óleos culinários;
- as folhas da árvore são utilizadas como forragem e fertilizante natural;
- o material resultante da poda das árvores e os exemplares mais decrépitos fornecem lenha e carvão vegetal;
- diversos produtos químicos são produzidos a partir dos taninos e dos ácidos naturais contidos na madeira.
A parte mais valiosa da árvore é, obviamente, a casca, utilizada no fabrico de uma infinidade de produtos de cortiça. Mais de cinquenta por cento da casca do sobreiro (cortiça) é utilizada no fabrico de rolhas, incluindo as de cortiça natural para garrafas de vinho, as de champanhe, as técnicas, as rolhas para vinhos de alta graduação e espirituosos, e pequenas rolhas utilizadas para fins diversos (perfumaria, medicamentos). Num processo de transformação verticalmente integrado, a utilização da cortiça não gera resíduos. Os desperdícios de cortiça provenientes do processo de produção de rolhas são reduzidos a granulados e reutilizados no fabrico de rolhas técnicas, de aglomerados industriais, de revestimentos de solos, de isolamentos, de utilidades decorativas... Até mesmo as finas partículas de pó de cortiça são recolhidas e utilizadas como combustível. A cortiça pode ainda ser ser combinada com outros materiais, como a borracha e a fibra de coco.
Naturais: rolhas e vedantes (vinho, conhaque, whisky, cerveja, vinho do Porto, produtos farmacêuticos); rolhas cónicas para laboratórios; rolhas para champanhe, vinhos espumantes e cidras; rolhas com topo em madeira, cerâmica ou plástico, para whisky, conhaque, vinho do Porto ou sherry; indústria de calçado (palmilhas, ortopédico,…) flutuadores, bóias; tapetes, revestimentos de solos, tectos e paredes; volantes (badminton); batoques, buchas e anilhas, discos, placas protectoras, blocos de polimento,...
Granulados e aglomerados: todos os produtos aglomerados (cortiça com borracha, gifts, com aplicações cerâmicas, rolhas de champanhe); confecção de linóleo; construção de edifícios (isolamento térmico); estruturas anti-sísmicas; juntas de dilatação/compressão (pontes, edifícios); components para a indústria de calçado; decoração - pública e doméstica; parquets; bolas de hóquei, golfe e basebol; brindes (memoboards, cinzeiros, caixas, bases, alvos de setas, …).
Isolamentos: isolamento térmico, acústico e vibrático; isolamento de condutas (gás, petróleo); construção, paredes; indústria de refrigeração; aeroportos; estúdios de música, discotecas e livrarias.
Cortiça com Borracha: indústria automóvel (juntas, indicadores de nível, válvulas, transmissões, outros componentes do motor) juntas para equipamento eléctrico e de gás; isolamento acústico e vibrático (construção, caminhos de ferro,...); componentes para a indústria do calçado.
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